A rápida ascensão das tecnologias de inteligência artificial e o avanço da desinformação impõem um desafio estrutural às faculdades de comunicação. Especialistas defendem que o ensino de jornalismo deve priorizar uma formação humanística, ancorada na ética e no pensamento crítico, para garantir a confiança da sociedade em um ecossistema digital cada vez mais complexo.
O debate ganha fôlego durante o 25º Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), realizado na Universidade de Brasília. O evento reúne pesquisadores para discutir como as instituições de ensino podem adaptar suas matrizes curriculares sem perder a essência da profissão diante das novas ferramentas tecnológicas.
Ensino de jornalismo e a integração transversal da tecnologia
A necessidade de adaptação não implica, necessariamente, a criação de disciplinas isoladas sobre inteligência artificial. A perspectiva acadêmica atual sugere que a tecnologia deve ser integrada de forma transversal, permeando todas as áreas do curso. O foco permanece no fortalecimento do papel clássico do jornalista, utilizando as inovações como suporte para a pesquisa e a verificação de dados.
A extensão universitária assume um papel central nesse processo. Ao conectar estudantes com a realidade externa e promover parcerias estratégicas, as faculdades conseguem decifrar contextos políticos e econômicos. A ideia é que o aluno compreenda a tecnologia não como uma ameaça apocalíptica, mas como um recurso que, se bem utilizado, potencializa o alcance e a precisão do trabalho jornalístico.
Educação midiática e o papel do profissional
Um dos pilares fundamentais para o futuro da profissão é o investimento em literacia midiática. O objetivo é capacitar o estudante para explicar ao público como funciona o ecossistema de informações, diferenciando claramente o conteúdo produzido por profissionais de jornalismo daquele gerado por influenciadores digitais. Essa distinção é vital para que a sociedade compreenda a importância da contextualização e da ética na apuração.
A formação deve preparar o futuro jornalista para atuar em um ambiente dominado por grandes corporações de tecnologia, as chamadas big techs. Nesse cenário, o controle exercido por algoritmos exige que a crítica e a ética precedam a técnica, evitando que o profissional seja apenas um reprodutor de dados em um sistema plataformizado.
A importância da vivência presencial na formação
Apesar da digitalização, a experiência presencial continua sendo considerada um diferencial insubstituível na formação. O jornalismo é uma atividade intrinsecamente coletiva, que depende da troca constante de ideias e do convívio em redações. A tendência de isolamento, muitas vezes impulsionada pelo trabalho virtual, é vista com cautela por especialistas.
A precarização das condições de trabalho, que afasta o jornalista das ruas e o confina em ambientes digitais, também é um ponto de atenção. O desafio das faculdades é manter o estímulo ao contato humano e à investigação de campo, garantindo que o futuro profissional esteja preparado para lidar com a complexidade da sociedade real, e não apenas com a interface das telas.


