O Brasil testemunhou uma transformação drástica em sua paisagem natural nas últimas quatro décadas, marcada pela perda de continuidade de suas florestas e campos. De acordo com um levantamento inédito do MapBiomas, divulgado nesta quarta-feira (13), o número de fragmentos isolados de vegetação nativa saltou de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023. Esse aumento de 260% revela como o avanço do desmatamento pulverizou grandes extensões de cobertura verde em pequenos remanescentes.
A fragmentação é o processo de divisão de áreas contínuas em porções menores e desconectadas. Os dados, extraídos do Módulo de Degradação da plataforma, indicam que, além do aumento na quantidade de fragmentos, houve uma redução severa no tamanho médio dessas áreas. Enquanto no início da série histórica a média era de 241 hectares, em 2023 esse número encolheu para apenas 77 hectares, dificultando a preservação da vida silvestre.
Vegetação nativa fragmentada e o impacto na biodiversidade
A redução do tamanho dos fragmentos de vegetação nativa gera consequências diretas para o equilíbrio dos ecossistemas. Segundo pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), áreas menores possuem menor capacidade de sustentar uma fauna e flora diversificadas. O isolamento aumenta o risco de extinções locais, uma vez que as espécies perdem a capacidade de transitar entre diferentes áreas para reprodução ou busca de alimento.
Outro problema crítico identificado é o chamado efeito de borda. Esse fenômeno ocorre nas margens dos fragmentos, onde a vegetação fica mais exposta a ventos, variações de temperatura e espécies invasoras, perdendo suas características originais. Quanto menor o fragmento, maior é a proporção de sua área total afetada por essa degradação periférica, o que compromete a integridade do bioma como um todo.
Retrato da fragmentação nos biomas brasileiros
O estudo aponta que quase 5% da vegetação nativa do país, cerca de 26,7 milhões de hectares, está distribuída em fragmentos menores que 250 hectares. A Mata Atlântica e o Cerrado lideram em quantidade absoluta, com 2,7 milhões de porções isoladas cada. No entanto, as causas diferem: no Cerrado, a fragmentação é fruto direto do desmatamento; na Mata Atlântica, o aumento também reflete o surgimento de novas áreas de vegetação secundária em recuperação.
Em termos percentuais de crescimento, o Pantanal e a Amazônia foram os biomas mais impactados no período de 38 anos, com altas de 350% e 332%, respectivamente. No Pampa, o crescimento foi de 285%. Embora a Caatinga e a Mata Atlântica tenham apresentado variações menores, de 90% e 68%, o cenário geral aponta para uma fragilização sistêmica da cobertura vegetal brasileira.
Monitoramento detecta distúrbios no dossel da Amazônia
Uma das novidades do relatório é a identificação de distúrbios no dossel das florestas na Amazônia Legal. Entre 1988 e 2024, cerca de 24,9 milhões de hectares — o equivalente a 7% da cobertura florestal da região — apresentaram sinais de perturbação. Essas clareiras são causadas por fatores como secas extremas, incêndios e, principalmente, pelo corte seletivo de madeira, que degradam a floresta sem necessariamente remover toda a cobertura vegetal.
O corte seletivo foi responsável por indícios de degradação em 9,7 milhões de hectares durante o período analisado. Diferente do desmatamento raso, onde a terra fica exposta, a degradação por corte seletivo ou fogo é mais sutil, mas igualmente prejudicial para a manutenção dos serviços ambientais, como a regulação do clima e o ciclo da água.
Desafios para a conservação e políticas de recuperação
Atualmente, 24% de toda a vegetação nativa remanescente no Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação, totalizando 134 milhões de hectares. A compreensão detalhada desses dados é fundamental para que o governo e órgãos ambientais possam formular políticas públicas eficazes. O objetivo é reduzir as emissões de gases de efeito estufa e estabelecer prioridades para a restauração florestal.
A detecção precoce da degradação permite reverter processos de perda ambiental antes que se tornem irreversíveis. A conservação das funções ecossistêmicas depende não apenas de parar o desmatamento, mas de reconectar esses fragmentos isolados por meio de corredores ecológicos, garantindo a sobrevivência da biodiversidade a longo prazo. Para mais detalhes sobre o monitoramento ambiental, acesse a Agência Brasil.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


