Feminicídio é crime anunciado e previsível, afirma desembargadora Maria Erotides

Feminicídio é crime anunciado e previsível, afirma desembargadora Maria Erotides

O caráter previsível do feminicídio

A desembargadora aposentada Maria Erotides Kneip trouxe um alerta contundente sobre a violência de gênero durante sua participação no PodOlhar. Segundo a magistrada, o feminicídio não é um evento súbito ou imprevisível, mas sim o desfecho de um processo gradual que deixa sinais claros antes de atingir sua fase fatal. Ela enfatiza que a sociedade precisa encarar o problema como um crime anunciado, passível de prevenção através da observação atenta dos comportamentos de risco.

Para a ex-magistrada, o maior obstáculo enfrentado pelas autoridades e pela sociedade civil não é a falta de instituições, mas a persistência de uma cultura histórica que ainda naturaliza relações de poder desiguais entre homens e mulheres. Essa mentalidade, que muitas vezes enxerga a mulher como propriedade, é o alicerce que sustenta a violência doméstica e dificulta a quebra do ciclo de agressões.

Fortalecimento das redes de proteção

No âmbito institucional, Maria Erotides destacou o papel fundamental da Cemulher-MT no combate à violência em Mato Grosso. Atualmente, a estrutura de enfrentamento conta com redes organizadas em 123 dos 142 municípios do estado. Esses núcleos operam por meio de protocolos integrados que unem forças de segurança, saúde, assistência social e educação para monitorar casos de vulnerabilidade.

A magistrada ressalta que a eficácia dessas redes depende da agilidade na resposta. Assim que uma ameaça à vida é notificada, todo o sistema deve entrar em alerta máximo. A integração entre diferentes setores é o que permite identificar o risco antes que a agressão escale para um desfecho irreversível, protegendo não apenas a mulher, mas também seus dependentes.

Identificação de riscos e a espiral da violência

Um dos pontos críticos abordados na entrevista foi a chamada espiral da violência. Este fenômeno caracteriza-se por episódios de agressão seguidos por períodos de aparente reconciliação, onde o agressor utiliza promessas de mudança para manipular a vítima. É justamente nesses momentos de calmaria que muitas mulheres optam por desistir das medidas protetivas, acreditando que o ciclo de perigo foi encerrado.

A desembargadora aponta que a falha na mensuração do nível de risco é um desafio constante. Muitas vezes, a própria vítima não consegue enxergar a gravidade da situação devido à manipulação emocional. Para a magistrada, o abandono da medida protetiva é um sinal de alerta vermelho que exige uma intervenção mais incisiva do Estado para evitar que o crime se concretize.

O papel da informação e da imprensa

O combate ao feminicídio também passa pela educação e pela disseminação de informações sobre os direitos das mulheres. Maria Erotides reconhece que a imprensa tem desempenhado um papel vital ao não apenas noticiar os casos, mas também ao divulgar caminhos e canais de denúncia disponíveis para quem precisa de ajuda. Saiba mais sobre o trabalho do Tribunal de Justiça de Mato Grosso.

A mudança cultural necessária para erradicar a violência doméstica é um processo contínuo. Enquanto o Estado trabalha para fortalecer suas estruturas de prevenção, a conscientização das vítimas sobre a real possibilidade de perigo permanece como uma das metas mais difíceis de alcançar, exigindo persistência e um esforço coletivo de toda a sociedade.

Fonte: olhardireto.com.br

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