Estudo aponta que tarifa zero no transporte público amplia acesso a serviços de saúde

© Marcelo Camargo/Agência Brasil

A implementação da tarifa zero no transporte público pode ser o diferencial necessário para garantir que populações periféricas acessem serviços essenciais de saúde. É o que revela um novo estudo conduzido por pesquisadores do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), que analisa como o custo das passagens e a precariedade da mobilidade urbana atuam como barreiras concretas para o tratamento de doenças crônicas e a continuidade de cuidados médicos.

Impacto da mobilidade no acesso à saúde

O custo diário do transporte público, que pode chegar a R$ 18 para trabalhadores que residem em regiões metropolitanas, impõe limitações severas à rotina de milhares de brasileiros. A dificuldade financeira, somada à imprevisibilidade e à superlotação dos veículos, resulta frequentemente em faltas a consultas agendadas e no atraso de diagnósticos fundamentais para a manutenção da saúde.

Relatos como o de Núbia Sales Veras, de 52 anos, ilustram esse cenário. Moradora da Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal, ela enfrenta diariamente o deslocamento de 50 quilômetros para trabalhar e relata já ter perdido consultas em instituições de referência, como o hospital Sarah, devido à demora e ao alto custo do sistema de transporte. A situação reflete um obstáculo que vai além do financeiro, atingindo a qualidade de vida e o bem-estar social dos usuários.

Desigualdade racial e segregação urbana

O relatório técnico, intitulado Quem pode circular? Tarifa zero, mobilidade e desigualdades raciais no acesso à cidade e aos serviços, destaca que o sofrimento psíquico e o estresse crônico decorrentes de longos tempos de deslocamento afetam desproporcionalmente a população negra. Por estarem sobrerrepresentados em áreas periféricas e possuírem menor renda, esses cidadãos sofrem com as barreiras territoriais que fragmentam o acesso aos equipamentos públicos.

Dados do DataSUS corroboram essa análise ao apontar que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em comparação a mulheres brancas. Segundo o estudo, essa disparidade está diretamente ligada às restrições materiais e espaciais de locomoção impostas pela segregação urbana, que impede o acesso equitativo a serviços de saúde preventivos e de acompanhamento contínuo.

Potencial da tarifa zero como política estruturante

Para os pesquisadores, a desoneração integral do custo da tarifa não deve ser vista apenas como uma medida de transporte, mas como uma política pública estruturante. O pesquisador da UnB, Paíque Duques Santarém, compara o potencial da tarifa zero ao impacto do Sistema Único de Saúde (SUS), sugerindo que a gratuidade universal poderia transformar a relação da sociedade com a mobilidade urbana.

Ao remover a barreira econômica, o poder público teria a oportunidade de tensionar os padrões históricos de exclusão que segregam as cidades brasileiras. A medida, portanto, apresenta-se como uma estratégia para assegurar que o direito à cidade e ao cuidado terapêutico não seja um privilégio condicionado à capacidade financeira do cidadão, conforme detalhado no estudo disponível em https://tarifazero.unb.br/wp-content/uploads/2026/05/2TARIFA-ZERO-MAIO-2.pdf.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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