O assessor especial da Presidência da República, o embaixador Celso Amorim, manifestou preocupação com a concentração de poder tecnológico nas mãos de poucas corporações globais. Durante a Conferência de Segurança Internacional do Forte, realizada em Portugal, o diplomata argumentou que a inteligência artificial, quando gerida por um grupo restrito de empresas sediadas em poucos países, atua como um catalisador de desigualdades e um risco latente aos sistemas democráticos.
Para o embaixador, a resistência dessas companhias, conhecidas como big techs, a qualquer forma de regulação estatal é um desafio direto à soberania das nações. Segundo Amorim, os Estados não podem abrir mão de sua capacidade regulatória, uma vez que esta é fundamentada no voto popular e no interesse público, contrapondo-se ao domínio de setores inteiros por interesses privados.
Inteligência artificial e o risco à soberania nacional
O debate sobre a soberania no século 21 passa, obrigatoriamente, pela resiliência cibernética. Celso Amorim destacou que os dados tornaram-se ativos estratégicos com valor econômico, político e militar, sendo essenciais para o treinamento de modelos de inteligência artificial e para a orientação de decisões de Estado.
A ausência de proteção digital, segundo o assessor, compromete a autonomia decisória e a confiança nas instituições. O embaixador citou como exemplo a necessidade de salvaguardar informações sensíveis, como os dados do Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo que o Brasil mantenha o controle sobre suas próprias infraestruturas de informação.
Regulação como ferramenta de justiça social
A proposta de regulação das plataformas digitais defendida por Amorim não visa apenas o controle técnico, mas o redirecionamento do desenvolvimento tecnológico para o bem comum. O objetivo é utilizar a inovação como motor para a redução da pobreza, a preservação do meio ambiente e a defesa intransigente dos direitos humanos.
O diplomata questionou a disparidade econômica global, enfatizando que a existência de trilionários em um cenário onde centenas de milhões de pessoas enfrentam a fome é um modelo insustentável. A regulação, portanto, surge como um mecanismo para alinhar o avanço tecnológico às necessidades da maioria da população mundial.
O dilema ético das armas autônomas
Um dos pontos mais críticos abordados pelo embaixador foi o emprego da inteligência artificial em conflitos armados. Amorim alertou para o desenvolvimento de armas autônomas, classificando-as como um dilema moral que desumaniza a guerra ao tornar o uso da força letal impessoal e distante do operador.
Ao remover o sentimento de culpa e o risco direto ao combatente, a tecnologia pode reduzir o constrangimento político e ético ao uso da força. Diante desse cenário geopolítico, o assessor defendeu que o Brasil deve investir em sua própria defesa e capacidade de dissuasão para garantir a segurança nacional frente às novas ameaças tecnológicas.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


