Estudo da Fiocruz detalha desafios urbanos e de apoio na saúde dos idosos brasileiros

© Marcello Casal JrAgência Brasil

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), divulgou recentemente os resultados da terceira fase do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos (Elsi-Brasil). Esta pesquisa é considerada uma das mais abrangentes investigações nacionais sobre o envelhecimento, oferecendo uma visão aprofundada das condições de vida da população com 60 anos ou mais. A iniciativa disponibiliza, em uma plataforma online, cerca de 100 indicadores que abordam aspectos cruciais como funcionalidade, ambiente social, acesso a políticas públicas e condições gerais de vida.

Os dados revelam que a qualidade de vida dos idosos no Brasil é influenciada por uma complexa interação de fatores urbanos, sociais e estruturais, indo muito além da mera ausência de doenças. A pesquisa sublinha a urgência de políticas públicas que considerem a realidade de uma população em constante envelhecimento, buscando promover um bem-estar integral.

Desafios urbanos e a percepção de segurança dos idosos

Um dos achados mais significativos do estudo diz respeito à percepção do ambiente urbano. Cerca de 42,7% dos idosos residentes em áreas urbanas expressam medo de cair devido a deficiências em calçadas, passeios ou vias públicas próximas às suas residências. Este percentual evidencia um problema estrutural que afeta diretamente a mobilidade, autonomia e participação social dessa parcela da população.

A preocupação com quedas é ainda mais acentuada entre as mulheres idosas, atingindo 50,5%, em contraste com 31,9% entre os homens. A idade também é um fator determinante, com o medo de cair crescendo de 35,2% na faixa etária de 60 a 69 anos para 63,1% entre aqueles com 80 anos ou mais. A coordenadora do Elsi-Brasil, pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa, enfatiza que “os dados reforçam a urgência de políticas públicas voltadas à adaptação das cidades para uma população cada vez mais envelhecida, incluindo acessibilidade, segurança viária, mobilidade e planejamento urbano inclusivo”.

Além da mobilidade, a insegurança é outro ponto crítico destacado pela pesquisa. Aproximadamente 12,1% dos idosos brasileiros consideram sua vizinhança muito insegura em relação à violência e criminalidade. Este número representa cerca de 3,8 milhões de pessoas idosas vivendo em ambientes marcados pelo medo e pela vulnerabilidade social. A percepção de insegurança é relativamente homogênea entre gêneros e faixas etárias, indicando que a violência urbana é um problema transversal com impacto direto na qualidade de vida, saúde mental e circulação social dos idosos.

Hipertensão e a importância do rastreamento na terceira idade

A hipertensão arterial sistêmica permanece como uma das condições de saúde mais relevantes entre os idosos. O estudo, que incluiu aferição domiciliar da pressão arterial com metodologia padronizada, identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão, ou seja, pressão igual ou superior a 14 por 9. Este registro corresponde a aproximadamente 11 milhões de brasileiros idosos que necessitam de avaliação clínica, diagnóstico e tratamento para prevenir desfechos graves, como infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.

A prevalência da hipertensão aumenta progressivamente com a idade, passando de 31,9% entre 60 e 69 anos para 40,1% entre pessoas com 80 anos ou mais. Diferentemente de outros indicadores, não foram observadas diferenças significativas entre homens e mulheres, o que reforça o caráter generalizado da condição. Os pesquisadores ressaltam a importância do rastreamento regular e do fortalecimento da atenção primária, visto que a hipertensão frequentemente é assintomática, para evitar subdiagnóstico e complicações.

Limitação funcional e a lacuna no apoio aos idosos

A perda da capacidade funcional emerge como outro eixo central do estudo. Os resultados indicam que 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como se vestir, tomar banho, comer, usar o banheiro ou levantar da cama. Este dado significa que cerca de 6,5 milhões de pessoas vivem com algum grau de limitação funcional, uma condição que afeta não apenas sua autonomia, mas também suas famílias, cuidadores e os sistemas de saúde e assistência social.

A pesquisadora Maria Fernanda Lima-Costa destaca que a diferença do resultado conforme o gênero novamente se sobressai: 23,1% das mulheres apresentam limitação funcional, contra 17% dos homens. A progressão por idade é ainda mais contundente: a prevalência passa de 13,9%, entre pessoas de 60 a 69 anos, para 44,2% entre idosos com 80 anos ou mais.

Os dados também revelam fragilidades importantes na rede de apoio. Entre os idosos que apresentam dificuldades para realizar uma ou mais atividades da vida diária, apenas 37,9% recebem ajuda. Esta proporção aumenta gradualmente com a idade, mas a falta de treinamento para cuidadores é alarmante: somente 5,8% relataram ter recebido algum tipo de capacitação. Este cenário aponta para a necessidade urgente de políticas integradas de cuidado de longa duração, apoio domiciliar e qualificação para cuidadores familiares ou informais.

O papel essencial do SUS e a nova plataforma de dados sobre envelhecimento

Os resultados do Elsi-Brasil reafirmam o papel central do Sistema Único de Saúde (SUS) como principal base de cuidado para a população idosa brasileira. Cerca de dois terços das pessoas com 60 anos ou mais têm o SUS como única fonte de atenção à saúde, com cobertura semelhante entre homens e mulheres e apenas discreta redução nas faixas etárias mais elevadas.

A Estratégia Saúde da Família (ESF), uma das principais políticas de atenção primária do SUS, também se destaca: 69,2% dos idosos brasileiros estão vinculados a essa iniciativa, o que representa cerca de 22,2 milhões de pessoas. A coordenadora do Elsi-Brasil reforça que “os dados reforçam evidências de que o SUS e a ESF constituem estruturas essenciais para a promoção do envelhecimento saudável, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas”.

O painel de indicadores sobre envelhecimento, lançado junto com a apresentação dos resultados da terceira onda da pesquisa, está disponível na plataforma do Elsi-Brasil. Esta ferramenta permite acesso público e ampliado a informações sobre múltiplas dimensões do envelhecimento no país. Criado para apoiar pesquisadores, gestores públicos, profissionais de saúde e sociedade civil, o painel visa monitorar continuamente as condições de vida e necessidades da população idosa brasileira.

Alinhado à proposta da Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030), instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o painel adota uma visão ampliada sobre envelhecimento, que vai além da ausência de doenças e incorpora dimensões como autonomia, capacidade funcional, segurança e condições ambientais como pilares essenciais para o bem-estar nas idades mais avançadas. Segundo os pesquisadores, a plataforma representa um instrumento decisivo para enfrentar, com rapidez e integração, os desafios impostos pelo envelhecimento da população brasileira. As ondas anteriores da pesquisa foram realizadas em 2015-2016 e 2019-2021, com a terceira em 2023-2024, posicionando o Brasil como referência estratégica na produção de conhecimento científico sobre o tema.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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