Mudanças climáticas ameaçam a produção agrícola em territórios quilombolas

© Lula Marques/Agência Brasil.

As comunidades quilombolas brasileiras enfrentam um cenário crítico de instabilidade ambiental que compromete a subsistência e a identidade cultural de seus povos. De norte a sul do país, a irregularidade das chuvas e os eventos climáticos extremos têm impactado diretamente a agricultura familiar, forçando famílias a abandonarem o cultivo tradicional em busca de alternativas de sobrevivência nas áreas urbanas. O tema ganhou destaque durante o Terceiro Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas, realizado no Gama (DF), onde a justiça climática foi apontada como pauta urgente para a preservação desses territórios.

Na comunidade de Nova Esperança, em Baraúna (RN), a agricultora Sueli Bessa relata a escassez de frutas que antes eram abundantes, como a goiaba. A falta de infraestrutura básica, somada à dependência de poços artesianos que secam com a estiagem, torna o cotidiano das 70 famílias locais um desafio constante. Sem estradas asfaltadas e com o acesso dificultado por tempestades, a produção agrícola perde espaço para a necessidade de emprego em indústrias distantes, evidenciando como o colapso ambiental acelera o êxodo rural e a desarticulação comunitária.

Impactos do racismo ambiental e grandes empreendimentos

A Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq) lançou, durante o encontro nacional, a obra Vozes quilombolas: mulheres em defesa do clima. O estudo, conduzido pela agrônoma Fran Paula, detalha como o avanço de grandes empreendimentos — como usinas eólicas, mineração e monoculturas — agrava o racismo ambiental. A pesquisa aponta que mulheres quilombolas são as principais vítimas da violência associada a esses projetos, sendo também as protagonistas na vigilância e conservação dos biomas.

O levantamento reforça que não há possibilidade de justiça climática sem a garantia da posse da terra. A regularização fundiária é vista como o pilar fundamental para que as comunidades possam exercer estratégias de resistência e proteção ambiental. Segundo a pesquisadora, as mulheres quilombolas possuem uma percepção aguçada sobre os limites da natureza, monitorando as mudanças nos ecossistemas com base em saberes ancestrais que agora se tornam ferramentas de sobrevivência frente ao aquecimento global.

Resistência cultural através do marmelo e do beiju

A ameaça climática também atinge símbolos de identidade cultural, como o cultivo do marmelo na comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO). Com a expectativa de titulação do território, que abriga 785 famílias, os produtores enfrentam a redução drástica na qualidade e no tamanho dos frutos devido às longas estiagens. A luta pela terra é, portanto, uma luta pela preservação de tradições seculares, como a produção de geleias e marmeladas que sustentam a economia local e a memória do grupo.

Situação semelhante ocorre na comunidade Divino Espírito Santo, em São Mateus (ES), onde o famoso beiju artesanal corre riscos. A agricultora Denise Penha aponta que a produção de mandioca tem diminuído, pressionada não apenas pelo caos climático, mas também pela contaminação por agrotóxicos de fazendas vizinhas. Para aprofundar-se sobre a situação dos direitos territoriais no Brasil, consulte informações oficiais através da Agência Brasil.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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