Mostra Ecofalante de Cinema inicia em São Paulo com foco em justiça social e clima

© Ecofalante de Cinema/Divulgação

A cidade de São Paulo recebe, a partir desta quinta-feira, 28 de maio, a 15ª edição da Mostra Ecofalante de Cinema. Consolidado como um dos principais eventos audiovisuais do país, o festival propõe uma intersecção profunda entre a sétima arte e as urgências contemporâneas, com foco especial nas pautas de justiça social e preservação climática. A programação, que se estende até o dia 10 de junho, oferece um panorama global das crises e resistências humanas através das lentes de cineastas de diversos continentes.

Ao todo, o público poderá conferir 104 filmes provenientes de 27 países. A seleção é rigorosa e inclui obras que foram destaque e premiadas em janelas internacionais de prestígio, como os festivais de Cannes, Sundance, Berlim e Locarno. O evento não apenas exibe produções de alta qualidade técnica, mas fomenta o debate crítico sobre o modelo de desenvolvimento atual e seus impactos diretos nas populações mais vulneráveis e no ecossistema global.

Mostra Ecofalante de Cinema e o debate socioambiental

A abertura oficial do evento ocorre com a exibição do longa-metragem O Urso Inconveniente, uma coprodução entre Estados Unidos e Reino Unido. Dirigido por Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman, o documentário chega a São Paulo com o peso do prêmio do júri conquistado no Festival de Sundance. A narrativa explora a tensão crescente entre comunidades humanas e a vida selvagem, utilizando a aproximação de um urso como metáfora para os desequilíbrios ambientais provocados pela expansão urbana.

Esta edição carrega um tom solene ao homenagear a produtora Zita Carvalhosa, figura central para o audiovisual brasileiro e fundadora do Kinoforum, que faleceu em 2025. Carvalhosa teve um papel fundamental na formação de novos cineastas e na curadoria de instituições como o Museu da Imagem e do Som (MIS). Sua trajetória é celebrada como um pilar de resistência cultural e fomento à diversidade narrativa no cinema nacional.

Povos originários e a luta por território no audiovisual

Um dos eixos mais potentes da programação é dedicado às violências sofridas por povos originários. O destaque fica para Nossa Terra, o primeiro documentário da renomada diretora argentina Lucrecia Martel. A obra investiga a expropriação de terras do povo diaguita, na província de Tucumán, um processo histórico marcado pelo assassinato do líder indígena Javier Chocobar. O filme de Martel é uma peça fundamental para entender as dinâmicas de poder e apagamento na América Latina.

Outras produções reforçam essa temática, como O Sal de Katwe, que retrata a sobrevivência de extrativistas em regiões devastadas pelo colonialismo na Uganda. Já o filme Runa Simi, do peruano Augusto Zegarra, traz uma perspectiva cultural ao narrar a tentativa de dublar animações clássicas para a língua quéchua. Essas obras compõem um mosaico de resistência que vai além da denúncia, alcançando a preservação da identidade e da memória ancestral.

Emergência climática e os novos desafios da humanidade

A crise ambiental é abordada sob diferentes prismas, desde o impacto direto no cotidiano até as consequências psicológicas da vida moderna. O filme Inverno Implacável exemplifica essa urgência ao mostrar a luta de jovens na Mongólia para salvar milhares de cavalos durante um inverno extremo e sem precedentes. A obra conecta o espectador à realidade crua das mudanças climáticas que já alteram ciclos naturais milenares.

Além da ecologia, a Mostra Ecofalante de Cinema abre espaço para discussões sobre o mundo do trabalho e a saúde mental. O documentário Querido amanhã, de Kaspar Astrup Schröder, mergulha na solidão da sociedade japonesa e nos sistemas de apoio voluntário criados para lidar com crises existenciais decorrentes de jornadas exaustivas. O festival organiza essas reflexões em eixos temáticos como Palestina: Apagamentos e Resistências e Feminismos, Corpo e Lutas de Gênero.

Acesso gratuito e produções nacionais em destaque

A valorização do cinema brasileiro é garantida pelo Concurso Curta Ecofalante, que apresenta 20 obras nacionais em competição. A maioria desses filmes é assinada por mulheres, abordando temas que vão desde o candomblé e comunidades pesqueiras até o direito à moradia e o combate à escravidão contemporânea. Essa vitrine é essencial para dar visibilidade a novas linguagens e vozes que compõem a diversidade do audiovisual no Brasil.

A democratização do acesso é uma marca registrada do evento, com entrada gratuita em todas as sessões físicas. Os filmes serão exibidos em locais como o Reserva Cultural, o Centro Cultural São Paulo (CCSP) e em salas do Circuito SPCine, incluindo os CEUs. Para quem prefere o formato digital, as plataformas Itaú Cultural Play e SPcine Play disponibilizarão títulos selecionados sem custo. A programação detalhada pode ser consultada no site oficial da mostra.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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