INCA denuncia estratégias da indústria do tabaco para atrair jovens com sabores

© Tânia Rêgo/Agência Brasil

O Brasil enfrenta um desafio crescente na saúde pública que vai além do combate ao tabagismo tradicional. Durante evento alusivo ao Dia Mundial sem Tabaco, realizado em 28 de maio de 2026, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) destacou que a indústria da nicotina tem concentrado esforços para captar adolescentes e jovens por meio de produtos com sabores e aromas atrativos.

O diretor-geral do INCA, Roberto Gil, enfatizou a gravidade da situação, ressaltando que a desinformação ainda é uma aliada das empresas do setor. Segundo o especialista, a comercialização de produtos que resultam em danos severos à saúde, matando um em cada dois usuários, exige uma postura rigorosa das autoridades sanitárias e judiciais do país.

O impacto dos aditivos e dispositivos eletrônicos

O Ministério da Saúde aponta que aromatizantes e dispositivos eletrônicos para fumar (DEF), como vapes e pods, tornam a iniciação ao tabaco mais palatável. Esses itens utilizam cores, cheiros e sabores doces para mascarar a toxicidade da nicotina, facilitando a adesão de um público mais jovem.

Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) revelam que, no continente americano, cerca de 2,6 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos consomem tabaco, sendo que dois milhões utilizam cigarros eletrônicos. O custo social e econômico é alarmante: um estudo apresentado pelo INCA em 2025 estima que o Brasil pode gastar até R$ 153 bilhões anualmente com doenças relacionadas ao vício.

Disputa judicial sobre a regulamentação

A batalha jurídica em torno da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 14/2012, da Anvisa, é central para o controle do tabagismo no Brasil. A norma proíbe aditivos que conferem sabor e aroma aos produtos de tabaco, mas a indústria fumageira contesta a medida, alegando que a proibição inviabilizaria a produção nacional.

Contudo, um artigo publicado na revista científica Tobacco Control refuta essa tese. A pesquisa demonstra que metade das marcas de cigarros registradas no Brasil em 2025 já não utilizava os aditivos vetados. O pesquisador André Szklo reforça que a manutenção desses componentes é uma escolha mercadológica deliberada para favorecer a iniciação ao fumo, e não uma necessidade técnica de produção.

Prioridade na prevenção infantojuvenil

O combate ao tabagismo é visto hoje como uma medida de proteção à saúde pediátrica. A coordenadora da Política de Prevenção e Controle do Câncer Infantojuvenil do Ministério da Saúde, Suyanne Camille Caldeira Monteiro, reforça que não existe dispositivo eletrônico seguro, especialmente para jovens em fase de construção de identidade.

O INCA, por meio do Programa Nacional de Controle do Tabagismo (PNCT), continua articulando políticas de prevenção e cessação. O objetivo é consolidar a proibição dos aditivos via Supremo Tribunal Federal (STF), garantindo que as futuras gerações não sejam captadas por estratégias que transformam o tabagismo em uma dependência precoce e persistente.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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