Pesquisadores da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificaram uma correlação significativa entre o parto cirúrgico e o desenvolvimento de neoplasia trofoblástica gestacional. O estudo revelou que pacientes com histórico de cesariana apresentam um risco 45% maior de desenvolver esse tipo raro de câncer, que tem origem em células da placenta e se manifesta no útero após episódios de mola gestacional.
Impacto da cesariana na neoplasia trofoblástica gestacional
A neoplasia trofoblástica gestacional é uma complicação grave decorrente da mola gestacional, condição caracterizada pela fertilização anormal que gera uma estrutura placentária anômala. Dados da pesquisa, que analisou 2.904 pacientes entre 2002 e 2022, indicam que 26,5% das mulheres com histórico de cesárea desenvolveram a neoplasia, em comparação com 20,8% daquelas que não passaram pelo procedimento cirúrgico.
A investigação foi conduzida em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, vinculado à Universidade de Harvard. O estudo controlou variáveis externas para isolar o efeito da cirurgia, confirmando que o procedimento atua como um fator de risco independente para a evolução da doença.
Hipóteses biológicas sobre a fragilidade uterina
A equipe médica, liderada pela obstetra Gabriela Paiva, sugere que a cicatriz deixada pela cesariana no útero cria uma área de vulnerabilidade. Esse tecido cicatricial pode desregular o sistema imunológico local e exigir um remodelamento dos vasos sanguíneos, facilitando a invasão das células da mola gestacional.
A cicatriz funciona, na prática, como uma porta de entrada para a proliferação celular anômala. Esse entendimento reforça a necessidade de um acompanhamento clínico mais rigoroso para pacientes que já foram submetidas ao parto cirúrgico e que venham a apresentar um quadro de mola gestacional.
Cenário brasileiro e recomendações clínicas
O Brasil, que apresenta uma das maiores taxas de cesarianas do mundo — chegando a 55%, enquanto a recomendação da Organização Mundial da Saúde é de 15% —, enfrenta um desafio de saúde pública. O orientador do trabalho, Antônio Braga, ressalta que o procedimento é essencial em situações de risco, mas deve ser realizado com consciência devido aos impactos de longo prazo.
O estudo estima que uma redução de 20 pontos percentuais nas taxas de cesariana no país poderia evitar cerca de 177 casos anuais de câncer de placenta. Apesar da correlação, os especialistas não sugerem tratamentos mais agressivos, mas recomendam maior vigilância e monitoramento constante dos níveis do hormônio HCG em pacientes com histórico de cirurgia uterina.
Para mais informações sobre o atendimento especializado, consulte o portal da Agência Brasil.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


