Investigação aponta falhas sistêmicas na Voepass
A Polícia Federal (PF) concluiu nesta quinta-feira (6) o inquérito que apura a queda da aeronave da Voepass Linhas Aéreas, ocorrida em agosto de 2024, na cidade de Vinhedo (SP). A tragédia, que resultou na morte de 62 pessoas sem deixar sobreviventes, culminou no indiciamento de 16 indivíduos ligados à companhia aérea, incluindo o presidente da empresa, José Luiz Felício Filho.
O inquérito detalha uma série de negligências operacionais que antecederam o acidente envolvendo o turboélice ATR 72-500. Segundo as autoridades, a aeronave não possuía condições técnicas adequadas para enfrentar as condições climáticas severas daquele dia, caracterizadas por formação de gelo e precipitações intensas. Equipamentos de segurança vitais, como o sistema de degelo e o limpador de para-brisa, estavam inoperantes no momento da decolagem.
Cultura de omissão e riscos operacionais
O delegado-chefe da Polícia Federal em Campinas, André Ribeiro, destacou que a investigação revelou uma cultura de omissão deliberada dentro da estrutura corporativa da Voepass. Conforme a apuração, a diretoria e a chefia de pilotos orientavam as tripulações a não registrar falhas técnicas nos relatórios pós-voo, evitando que as aeronaves fossem retiradas de operação para manutenção.
Essa prática impedia a fiscalização adequada e permitia que aviões com problemas recorrentes continuassem voando. Durante o voo fatídico, o sistema de segurança da aeronave emitiu alertas sonoros e visuais de degradação das condições de voo, contudo, a investigação aponta que os pilotos não adotaram as medidas de contingência necessárias para mitigar o risco iminente.
Desdobramentos judiciais e medidas cautelares
Entre os indiciados, 15 pessoas responderão pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, previsto no Artigo 261 do Código Penal, com penas que podem variar de 8 a 24 anos de prisão devido ao resultado morte. Um dos envolvidos, o comandante do voo anterior, foi indiciado por falsidade ideológica. A Justiça Federal determinou que todos os indiciados estão proibidos de deixar o país, devendo retornar ao Brasil caso estejam no exterior.
A Polícia Federal solicitou ainda o compartilhamento integral das provas com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e com a Procuradoria da República no Distrito Federal. O objetivo é verificar se houve falhas por parte de servidores públicos no processo de fiscalização da companhia. Enquanto isso, o Ministério Público Federal (MPF) analisa o inquérito para definir as próximas etapas da denúncia formal.
Reação das famílias das vítimas
Representantes da Associação de Familiares das Vítimas classificaram a operação da empresa como criminosa. Em declaração, Fátima Albuquerque afirmou que os profissionais envolvidos tinham pleno conhecimento dos riscos e das precariedades técnicas da aeronave. O grupo jurídico que assessora as famílias prepara uma ação coletiva por danos morais contra a Voepass, buscando responsabilização pelos danos causados pela tragédia.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


