Após quase 45 anos de espera por respostas e justiça, o governo brasileiro formalizou um pedido público de desculpas pelo desaparecimento de Paulo de Tarso Celestino da Silva. O ex-aluno de Direito da Universidade de Brasília (UnB) foi uma das vítimas da repressão durante a ditadura militar, tendo sua trajetória interrompida aos 27 anos. O ato simbólico, realizado nas dependências da instituição, buscou oferecer uma reparação histórica à família e à sociedade brasileira.
A trajetória e o desaparecimento de Paulo de Tarso
Natural de Morrinhos, em Goiás, Paulo de Tarso era filho de Pedro Celestino da Silva, deputado federal que teve seu mandato cassado pelo AI-5. Após concluir sua formação acadêmica em 1969, o jovem seguiu para a França, onde cursou pós-graduação na Universidade de Sorbonne. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), ele foi capturado no Rio de Janeiro em 12 de julho de 1971 por agentes do DOI-CODI do I Exército, ao lado de Heleny Ferreira Telles Guariba.
O destino de Paulo de Tarso foi revelado por meio de depoimentos de outros sobreviventes, como Inês Etienne Romeu. Segundo relatos documentados pelo portal Memórias da Ditadura, o estudante foi levado para um centro clandestino em Petrópolis, conhecido como Casa da Morte. Lá, foi submetido a sessões brutais de tortura por agentes identificados por codinomes. Investigações posteriores indicaram que, após a execução, os corpos eram esquartejados para impedir a identificação dos restos mortais.
Responsabilidade do Estado e reparação histórica
Durante a cerimônia, a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Melo, enfatizou que o reconhecimento da responsabilidade estatal é um passo fundamental para o processo de reconciliação nacional. A ministra destacou que o desaparecimento de Paulo de Tarso simboliza a face mais cruel da violência institucional daquele período. Para o governo, a ausência de um desfecho sobre o paradeiro da vítima impede que a família exerça plenamente o direito ao luto.
O evento contou com a presença de familiares, ex-colegas e representantes de órgãos como a Comissão de Mortos e Desaparecidos na ditadura e a Comissão de Anistia. A iniciativa integra uma série de ações voltadas à preservação da memória e à reparação simbólica. O objetivo é garantir que as novas gerações tenham acesso aos fatos ocorridos, combatendo o esquecimento e fortalecendo os pilares democráticos do país.
Defesa da liberdade e autonomia universitária
A reitora da UnB, Rozana Naves, aproveitou a ocasião para rememorar as agressões sofridas pelas instituições de ensino superior durante o regime militar. Para a reitora, a memória de Paulo de Tarso serve como um lembrete constante da importância da liberdade de pensamento e da autonomia universitária. Ela reforçou que a universidade pública deve ser um espaço de resistência contra o autoritarismo e de compromisso com a justiça social.
O legado de estudantes como Paulo de Tarso, segundo Naves, reside na defesa da produção científica e do pensamento crítico. A cerimônia reafirmou que as lutas do passado permanecem vivas nas condições atuais de ensino e pesquisa. O ato de desculpas não encerra apenas um capítulo de dor, mas convoca a sociedade a manter o compromisso com a democracia e com a verdade histórica.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br


